05 Novembro 2009

Partir


deixa eu te amar
só um pouco
enquanto a morte não me vem buscar

depois podes sentir meus lábios frios

Atit Ordep

Foto de mariah

Foto


te imagino e reinvento
quando toco teus lábios frios
no leito de morte
de um desejo inacabado

te observo
colar de pérolas
baloiçando
ao ritmo de um desejo

te desejo
numa sofreguidão sanguinolenta
de um amante escorraçado

te beijo
de cima para baixo
enquanto teu corpo
se ergue hirto
sobre o meu cadáver

te exorcizo
na tua provocação

Atit Ordep

Foto de Nuno Sampaio

31 Outubro 2009

No caminho de casa


no caminho de casa pensava em ti
mas não tinha coragem para inverter o caminho
ficava de olhar especado nas montras
e vagueava por entre saias e corpetes
cores e formas da alienação
depois seguia em passo firme para casa
com um saco na mão
um prémio de consolação
a vida pode esperar

Atit Ordep

29 Outubro 2009

Casa branca


Casa branca em frente ao mar enorme,
Com o teu jardim de areia e flores marinhas
E o teu silêncio intacto em que dorme
O milagre das coisas que eram minhas.

A ti eu voltarei após o incerto
Calor de tantos gestos recebidos
Passados os tumultos e o deserto
Beijados os fantasmas, percorridos
Os murmúrios da terra indefinida.

Em ti renascerei num mundo meu
E a redenção virá nas tuas linhas
Onde nenhuma coisa se perdeu
Do milagre das coisas que eram minhas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Foto de Luís Filipe Cabaço

Amar é a eterna inocência


Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Alberto Caeiro

Em o guardador de rebanhos

Foto de Rui Pires

Não tenho ambições nem desejos


Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

Alberto Caeiro

Em o guardador de rebanhos

Foto de Hugo Macedo

18 Outubro 2009

A escrita espreguiçou-se…



A escrita espreguiçou-se… lentamente., alongando-se por parágrafos curtos… procurou virgulas, aspas, exclamações e interrogações…perdeu-se na gramática, reencontrou-se na semântica, experimentou a prosa, deliciou-se por poemas e rimas…e os capítulos foram encadeados no percurso da linguagem. A escrita cansada, procurava o conforto da folha e sentia-se amada pelo toque da caneta, mas faltava-lhe a inspiração do autor, desgastada, confusa, triste, perdida, gritou: por favor…ponto final.

Isabel Castanheira das Neves

Pintura de PJ Crook

11 Outubro 2009

Escavações


um dia
amei alguém
mais que a própria vida

foi há muito, muito tempo
foi no tempo dos dinossauros

sob camadas de sedimentos sentimentais
fazem agora escavações

será que vão descobrir
que amei
há muito, muito tempo

Atit Ordep

Foto de Hugo Macedo

Meu Deus, me dê a Coragem


Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.

Clarice Lispector

Foto de Jandira

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio


Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
Enlacemos as mãos.

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes.

Fernando Pessoa

Foto de Jandira

02 Outubro 2009

Tantas perguntas ao cair da noite


onde estarás agora
que a noite caiu
e está escuro na rua

em que cama te deitas
quando o corpo abdica
de resistir ao dia

será que encontras
outros lábios para saciar
a sede de ternura

quantas mentiras
sobreviveram à realidade
da solidão do caminho de casa

em que cama vazia
te deitas agora

que trevas tens de transpor
para que um dia nasça
acordado por um beijo

quantos ciclos de cegueira
ensaias durante a tua vida

Atit Ordep

Foto de Paulo César Melges

30 Setembro 2009

O amor também morre


o amor também morre
como as pessoas
fica sem corpo
e passado algum tempo sem alma
porque o amor vive na memória dos dias
e na alma dos vivos

e no outro mundo
porque ainda não lá estive
não posso falar
dizem que existem pontes
que atravessam o tempo e as almas
e ligam essas vidas desencontradas

Atit Ordep

Foto de José d' Almeida & Maria Flores


Post Scriptum for P - O amor nunca acaba? Quando é mesmo amor, não!

Post Scriptum for Dermatologist – O verdadeiro amor nunca morre depressa! Leva tempo a decompor-se em pó de estelas.

24 Setembro 2009

Assim, devagar…


… e eu que apenas sabia amar-te
nunca aprendi a morrer depressa
nunca consegui decifrar os segredos do arco-íris
todas as cores se diluíam sem ti
nem o choro libertava
e nem o tempo curava

… e no fim deixei morrer o amor
assim, devagar…

Atit Ordep

Foto de Jorge Garcia

Quadrilha


João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Carlos Drummond de Andrade

Foto de Hugo Macedo

Choro!


Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
as crianças violadas
nos muros da noite
húmidos de carne lívida
onde as rosas se desgrenham
para os cabelos dos charcos.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
diante desta mulher que ri
com um sol de soluços na boca
— no exílio dos Rumos Decepados.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
este sequestro de ir buscar cadáveres
ao peso dos poços
— onde já nem sequer há lodo
para as estrelas descerem
arrependidas de céu.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
a coragem do último sorriso
para o rosto bem-amado
naquela Noite dos Muros a erguerem-se nos olhos
com as mãos ainda à procura do eterno
na carne de despir,
suada de ilusão.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
todas as humilhações das mulheres de joelhos nos tapetes da súplica
todos os vagabundos caídos ao luar onde o sol para atirar camélias
todas as prostitutas esbofeteadas pelos esqueleto de repente dos espelhos
todas as horas-da-morte nos casebres em que as aranhas tecem vestidos para o sopro do
silêncio
todas as crianças com cães batidos no crispar das bocas sujas
de miséria...

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro...

Mas não por mim, ouviram?
Eu não preciso de lágrimas!
Eu não quero lágrimas!

Levanto-me e proíbo as estrelas de fingir que choram por mim!

Deixem-me para aqui, seco,
senhor de insónias e de cardos,
neste ódio enternecido
de chorar em segredo pelos outros
à espera daquele Dia
em que o meu coração
estoire de amor a Terra
com as lágrimas públicas de pedra incendiada
a correrem-me nas faces
— num arrepio de Primavera
e de Catástrofe!

José Gomes Ferreira

Foto de José d' Almeida & Maria Flores